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SEGUNDO
ESTUDO recente realizado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada), o Brasil é o campeão
mundial no quesito "generosidade" do sistema de
Previdência Social. O estudo compara as regras para a
concessão das aposentadorias programadas no Brasil, de um
lado, e, de outro, os critérios adotados em 22 países. E
conclui: "O Brasil é o que possui regras menos
restritivas para a concessão de aposentadorias
programadas".
A
tese da generosidade é mais um mito. Com base nos dados
apresentados, podemos tirar conclusões diferentes: o
Brasil adota regras semelhantes aos países desenvolvidos;
essa equivalência, num dramático contexto socioeconômico,
nos coloca longe do topo do ranking mundial.
O
principal argumento para justificar a tese da
"generosidade" é falacioso: o Brasil não
estabelece idade mínima para a aposentadoria.
Ora,
a reforma da Previdência realizada em 1998 restringiu o
legado da Constituição Federal de 1988, criando duas
alternativas: a) aposentadoria "por idade" -65
anos para homens e 60 anos para mulheres, além da exigência
de contribuição mínima por 15 anos; e b) aposentadoria
"por tempo de contribuição" -35 (homens) ou 30
anos (mulheres). Nesse caso, até que os contribuintes
atinjam 60 ou 55 anos de idade, respectivamente, incide o
"fator previdenciário", que avilta o valor do
benefício, amplia o período de contribuição e posterga
o inicio da inatividade. Observe-se que a taxa de
incremento anual das "aposentadorias por tempo de
contribuição" declinou de 10,2% para 2,1% entre o
período anterior à introdução do fator e o posterior.
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A
tese da generosidade da nossa Previdência é mais um
mito. Com base nos dados apresentados, podemos tirar
conclusões diferentes
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Considerando
esse fato, as regras brasileiras de aposentadoria
"por idade” (65 e 60 anos) são mais exigentes que as
praticadas por alguns países desenvolvidos. Alemanha, Bélgica,
França e Canadá exigem idade mínima de 60 anos para
homens e mulheres. O mesmo se observa nos EUA (62), na Suécia
(61) e na Itália (57).
As
regras de "tempo de contribuição" (35 e 30
anos) também são restritivas. EUA e Finlândia exigem
cerca de dez anos; na Alemanha, 15 anos (homens) e dez
anos (mulheres); e o Canadá não exige tempo de contribuição.
O Brasil se equipara à Bélgica (35) e perde somente para
o Reino Unido (44).
Outro
mito é o de que, no Brasil, as aposentadorias são
precoces. Nesse caso, os dados são manipulados pela
consideração do estoque de benefícios, e não pelo
fluxo dos novos benefícios concedidos a partir da reforma
de 1998. A idade média das novas "aposentadorias por
tempo de contribuição" aumentou de 49 para 54 anos
entre 1997 e 2005. Atualmente, a idade média geral
("idade" e "tempo de contribuição")
se situa em tomo de 60 anos. Em poucos anos, superamos a Bélgica
(58) e a França (59) e nos aproximamos da média dos 22
países (61,5) considerados pelo IPEA.
O
"mito da generosidade" se mostra mais paradoxal
se considerarmos que não há como demarcar nenhuma
equivalência
entre o nosso trágico contexto socioeconômico e o
contexto dos países desenvolvidos.
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Nosso
PIB per capita é de cerca de US$ 7,5 mil. Para 11 dos 22
países analisados, esse valor se situa entre US$ 25 mil e
US$ 38 mil. A expectativa de vida no Brasil é de 68,1
(homens) e 75,8 anos (mulheres). Em 14 países retratados,
esse indicador gira entre 76 e 79 anos (homens), e, em 17,
ele é superior a 80 anos (mulheres).
Além
disso, ocupamos a terceira pior colocação no ranking da
distribuição de renda. Aqui, o coeficiente de Gini se
aproxima de 0,6; na maior parte dos países analisados, se
situa
entre
0,2 e 0,4. Temos a pior posição mundial em termos de
desigualdade: a razão entre a renda dos 10% mais ricos e
a dos 40% mais pobres é de 25 vezes; e, para a maior
parte dos países analisados, essa razão gira em tomo de
cinco vezes. '
O
estudo também desconsidera outras características
estruturalmente injustas do nosso mercado de trabalho.
Hoje, o desemprego equivale a 16% da população
economicamente ativa e, entre os assalariados do setor
privado, mais de 50% têm emprego informal. Ou seja, a
maior parte dos trabalhadores dificilmente terá condições
de comprovar 35 anos de contribuição para a Previdência.
Esse
é o maior problema atual. Hoje, por causa da Constituição
de 1988, mais de 80% dos idosos têm a aposentadoria como
fonte de renda. Nas próximas décadas, não será possível
manter essa cobertura, e os "meninos de rua"
sofrerão a impiedosa concorrência dos "velhos de
rua".
A
reforma da Previdência deveria priorizar a inclusão
desse contingente. Todavia, a ortodoxia fiscal avança na
direção oposta: tomar ainda mais restritivas as regras
da Previdência.
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EDUARDO FAGNANI, 52. é professor
doutor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual
de Campinas) e pesquisador do CESIT (Centro de Estudos Sindicais e
do Trabalho), |